Agradecimento a René Kaës (1936 – 2026)
- Rosina Constante Pereira
- há 3 dias
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Atualizado: há 2 dias

Faleceu no mês passado. Apesar da sua idade avançada e da vasta obra publicada, senti a notícia como perda grave de uma fonte de inspiração importante durante os meus trinta anos de trabalho em psicodrama psicanalítico de grupo, psicanálise e psicoterapia de casais e famílias.
Kaës nasceu no nordeste da França, licenciou-se em psicologia social e mais tarde tornou-se psicanalista. Considerou que a psicanálise nasce de 2 lugares diferentes: o espaço singular do tratamento no divã e o espaço do grupo dos psicanalistas inventores da psicanálise. Especializando-se no trabalho com grupos, estudou com Anzieu em Paris os processos psíquicos nos grupos e instituições, com objetivos terapêuticos e pedagógicos.
Os princípios básicos de Kaës: “o objecto constrói-se com o método” (Bachelard), o grupo deve ser pensado conjuntamente com a hipótese do inconsciente, o saber sobre o inconsciente não se pode dissociar das condições da sua elaboração.
Conhecedor profundo de Freud, Bion, Foulkes, Pichon-Rivière, Aulagnier, Bleger (o quadro grupal) e com forte ligação ao conceito de espaço potencial/intermediário de Winnicott, Kaës desenvolveu o estudo da transicionalidade. Com base na matriz da grupalidade em Freud, concebeu o aparelho psíquico grupal, de modo a que se possa compreender psicanaliticamente os fenómenos psíquicos que se produzem nos grupos humanos e como no grupo o sujeito singular e o Eu pensante se constituem, transformam ou desaparecem.
O grupo psíquico é um conjunto de elementos: neuroses, representações, afectos, pulsões. Ligados entre si por investimentos mútuos, funcionam como atractores de ligação, têm forças e princípios de organização específicos e um sistema de protecção e de representações, estabelecendo relações de tensão com os elementos isolados, desligados, que podem modificar certos equilíbrios intrapsíquicos.
Organização grupal da matéria psíquica: o grupo intersubjectivo e o grupo interno articulam-se e fundam-se reciprocamente. O grupo intersubjetivo é um lugar de formação do inconsciente. A organização de vínculos intersubjetivos, de relações entre vários sujeitos do inconsciente, produzem formações e processos psíquicos específicos. O grupo interno é a forma e estrutura de uma organização intrapsíquica caracterizada por ligações mútuas entre os elementos que a constituem e pelas funções desempenhadas no aparelho psíquico. O espaço grupal intersubjectivo é apoiado por formações da grupalidade intrapsíquica. articuladas com os processos intrapsíquicos individuais.
Metodologia apropriada à análise dos conjuntos intersubjetivos: investigar e analisar os efeitos das transferências, do enunciado da regra básica (associação livre), dos processos associativos e das modalidades de interpretação. O objetivo de Kaës é encontrar na psicanálise a matéria e o fundamento de uma teoria geral do grupo, através da construção de um objecto teórico que descreva o modelo do aparelho psíquico grupal.
O inconsciente é estruturado como um grupo de pensamentos clivados que atraem os pensamentos pré-conscientes, conscientes e recalcados. As conexões entre membros dos grupos criam uma rede intersubjetiva internalizada. O grupo intersubjectivo é o modelo e a metáfora (de que se serve Freud) para representar os grupos psíquicos e o próprio aparelho psíquico. O modelo grupal da psique organiza de modo coerente a representação dos processos primários, das identificações, do Eu, das fantasias e dos complexos.
Freud (1914): “Aquilo que herdaste dos teus pais conquista-o, para o possuíres!” (Goethe, Fausto). O encontro com o grupo actualiza e transforma aquilo que já existia no sujeito, não há processo psíquico que possa ser roubado por uma geração à outra que se lhe segue. A tendência reprimida deixa um substituto, uma marca, que segue o seu caminho até tomar corpo e significado para o sujeito singular. O que se transmite, mais do que uma marca, é um resto. As conexões recíprocas entre o sujeito e o seu conjunto são enlaçadas em pactos, contratos e alianças, em que o conjunto tem mais importância do que o indivíduo. O sujeito é para ele mesmo o seu próprio fim, por outro lado é herdeiro e beneficiário da cadeia do conjunto intersubjectivo, que tem formações e processos cuja consistência e organização dependem do conjunto. Aquele que ocupa um lugar num conjunto é apenas o detentor provisório de uma instituição que lhe sobreviverá. Realiza parcialmente aquilo que lhe é exigido pela sua estrutura e pela sua história.
Para terminar, lembro a definição do quadro do psicodrama psicanalítico: é um contentor (Bleger), onde se distingue o conter, o depósito e a cripta (o escondido e o arcaico), introduz limites (que estabelecem a distinção entre eu e não eu, entre espaço corporal e espaço mental), é um espaço transicional (articula o dentro e o fora, assim como o paradoxal), é um apoio num “objecto de fundo” que ajuda a formar o sentimento de segurança e de identidade, é um continente, figurando e transformando as representações de objectos e afectos em representações de palavras e tem a função de simbolização, fundamental para a formação do pensamento.
