Reviver o Encontro: O 15º Congresso Ibero-americano de Psicodrama
- João Paulo Ribeiro

- há 3 dias
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Entre os dias 16 e 19 de Outubro realizou-se em Tarragona, Espanha, o 15º Congresso Ibero-americano de Psicodrama, sob o título "Arquitectura del Encuentro, Grupos que Crean Futuro", com a presença de mais de 500 profissionais de 21 países, 17 dos quais latino-americanos. Com efeito, este é um evento que reúne psicodramatistas de países e escolas psicodramáticas dispares, constituindo uma oportunidade de enriquecimento científico para a comunidade ibero-americana de psicodrama, dada a possibilidade de melhor conhecer as diferentes escolas e tipos de psicodrama levados a cabo nestes países.
Além disso, é uma oportunidade de reencontrar colegas que vamos encontrando em congressos de psicodrama, e com quem criámos laços, em virtude dos momentos partilhados. Esses momentos com frequência vão além da partilha científica, sendo também partilhas afetivas, ocorridas em workshops e convívios extra-congresso.
Como sabemos, os congressos de psicodrama têm uma ampla variedade de intervenções científicas, que contemplam mesas de comunicações, mesas redondas de debate, apresentações de livros, posters e workshops. Nestes diferentes espaços vão ocorrendo partilhas científicas, porém é nos workshops que estas partilhas integram também uma componente vivencial, que fomenta o estabelecimento de um vínculo afetivo de alguma intimidade. Este foi um congresso intenso a este respeito, com momentos de bastante cumplicidade e partilha que estreitaram os laços afetivos.
A meu ver, tal deveu-se a um conjunto de situações, tais como: a) O facto do congresso ser de frequência bianual, o que faz com que uma parte considerável dos participantes apenas se encontrem de dois em dois anos; b) O facto da maioria dos participantes estar embutido do espírito de viajante, dado que a grande maioria dos congressistas encontram-se a realizar uma viagem e, concomitantemente, a conhecerem um novo país, ou mesmo um outro continente; c) O facto de vários participantes estarem embutidos de memórias de vivências conjuntas anteriores, ocorridas nos workshops, nas mesas de comunicações e de debate, ou então em momentos de convívio, que foram cimentando um vínculo pessoal e profissional entre eles; d) A transculturalidade derivada da presença de participantes de diferentes países, ainda que todos com a sua marca cultural e afetividade latina. Esta confluência de circunstâncias possibilita que este congresso tenha uma configuração emocional e profissional única, de grande enriquecimento e forte vivência.
No que respeita a correntes de psicodrama, a diversidade dos modelos psicodramáticos foi vasta, com apresentações teóricas e práticas de diferentes escolas. Assim, foi possível dar a conhecer trabalhos sobre o psicodrama moreniano, o psicodrama psicanalítico, o psicodrama junguiano, o psicodrama transgeracional, o modelo psicodramático da escola Rojas-Bermúdez, entre outros. Além disso, foi possível conhecer trabalhos de diferentes áreas de aplicação do psicodrama, tais como a utilização de psicodrama na comunidade, na saúdemental, na justiça e em situações de vulnerabilidade social; assim como o intercâmbio do psicodrama com outras psicoterapias, como a arteterapia, o teatro de playback psicoterapêutico e o EMDR.
Por fim, houve ainda lugar para a apresentação de trabalhos de sociodrama, de psicodança e de psicodrama bipessoal, propostas de intervenção terapêuticas derivadas do psicodrama de grupo. Tal vastidão de escolas e de áreas de intervenção revela a riqueza científica que caracteriza os congressos ibero-americanos de psicodrama, encontros de uma rica confrontação de saberes e intervenções psicodramáticas.
Do ponto de vista do psicodrama psicanalítico de grupo, verificou-se a apresentação de diversos trabalhos teóricos e práticos (workshops), envolvendo temas como as bases teóricas e os fundamentos identitários do psicodrama psicanalítico, a investigação em psicodrama psicanalítico, o trabalho transgeracional em psicodrama psicanalítico, o psicodrama psicanalítico com mulheres vítimas de violência familiar, o uso de mitos em psicodrama psicanalítico. Para além destes trabalhos realçamos também a participação de uma quantidade significativa de sócios da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo (SPPPG), que ajudaram a enriquecer o congresso. A respeito do psicodrama psicanalítico, salientamos ainda a parceria entre a SPPPG, a Aula de Psicodrama - escola de psicodrama psicanalítico de Madrid - e a Escuela de Psicodrama de Barcelona - escola de psicodrama psicanalítico de Barcelona -, como momento inicial de conhecimento e partilha científica entre estas escolas.
Não pretendemos findar estas palavras sem realçarmos o ambiente afetivo e festivo deste encontro: abraçamos, fomos abraçados e fortalecemos o vínculo coeso desta comunidade psicodramática.
Terminamos com um poema de Jacob Moreno, uma vez que o psicodrama, enquanto ferramenta psicoterapêutica, é um lugar de relação com a criança que nos habita, e que necessita, sempre, de ser cuidada.
El Reino de los Niños - La Plegaria de los Niños
Nosotros los niños nos fundimos en una figura,
Florecemos en suelo pantanoso,
Arrojamos flores del arbusto y del bosque
Para curar la herida del moribundo.
(Jacob Levy Moreno, in Invitación a un encuentro. Viena: Cuaderno 1, Informe de J. Levy)
João Paulo Ribeiro
(Psicólogo Clínico e sócio titular da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo)




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