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Jaime Rojas-Bermúdez na Cena que Nos Habita

  • Luísa Branco Vicente
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Antes de ser autor, foi presença. E há presenças que não se despedem, tornam-se espaço. E permanecem…

O seu ensinamento não se encerra na memória: vive na prática e na cena do encontro.

Há emoções que não se anunciam, atravessam-nos. Estar aqui a homenagear Jaime Rojas Bermúdez convoca em mim laços afetivos profundamente ternos, que o tempo não dissolveu. Celebrar os seus 100 anos, revisitando a sua obra, é também reencontrar uma parte viva da minha própria história.

Escrever sobre ele é escrever sobre uma presença que atravessa o meu percurso profissional e pessoal. Pensá-lo implica articular duas dimensões indissociáveis: a densidade da sua construção teórica e a experiência viva do encontro clínico. Antes de ser autor, foi presença. Uma presença que transformava o espaço terapêutico pela qualidade da escuta, pela capacidade de sustentar o silêncio e por uma confiança inabalável na possibilidade de simbolização.

A sua contribuição ultrapassou o desenvolvimento técnico do psicodrama. Representou uma reorganização metapsicológica na compreensão da constituição do Eu, da função da matriz relacional e do papel estruturante da cena. O seu pensamento ofereceu-nos uma arquitetura conceptual sólida, mas sempre ancorada na experiência viva da relação.

Esta homenagem levou-me a revisitar o que dele conheci, não apenas o psicodramatista e psicanalista, mas o ser humano. Ao deslizar pelas memórias, reencontrei vivências que permanecem atuais na sua ressonância.

Recordo, em particular, o I Congresso Internacional de Psicodrama Psicanalítico, subordinado ao tema Transformação da Violência – A Expressão da Criatividade – Homenagem a Rojas Bermúdez, que organizámos em Lisboa, em fevereiro de 2010, durante a minha presidência na Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo. Foi um momento significativo para o Psicodrama e para a Psiquiatria pela homenagem, pela pertinência do tema, pela qualidade científica dos participantes e pela fraterna colaboração de diversas sociedades nacionais e internacionais.

Nesse congresso, começamos por refletir sobre a sua obra num grande painel plenário, seguido de uma conferência do próprio homenageado. Escutá-lo foi testemunhar, uma vez mais, a sua coragem clínica: sustentar o desamparo sem o negar; confiar que, mesmo nos estados mais fragmentados do Eu, permanece a possibilidade de construção simbólica quando o enquadre é firme e o vínculo é confiável. Os trabalhos prosseguiram com painéis e workshops dedicados às múltiplas expressões da violência (depressão, patologias do agir, psicose), realidades que continuam a interpelar-nos diariamente, como clínicos e como cidadãos.

Essa homenagem, como a de agora, não constitui apenas um reconhecimento institucional. É, sobretudo, um gesto de gratidão e de compromisso com a continuidade de um pensamento que permanece estruturante. O que nos ensinou não se encerra na memória: prolonga-se na prática, na transmissão, na cena que se abre sempre que dois sujeitos se dispõem ao encontro.

A sua ausência física é sentida na falta da voz, do olhar, do sorriso, do gesto afetuoso. Contudo, permanece vivo na exigência ética que nos transmitiu e na confiança na criatividade como força transformadora. E, permanece, sobretudo, na cena que nos habita, essa cena interior onde a relação continua a organizar sentido.

Há presenças que não se despedem, tornam-se espaço, tornam-se silêncio, tornam-se gesto. E permanecem… Até sempre, meu querido Amigo!

1 comentário


Convidado:
há 2 dias

Bonita homenagem

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