A função continente e mediações simbólicas na intervenção psicoterapêutica de adolescentes em internamento psiquiátrico


Passado mais de um ano da abertura da UPIA (Unidade Psiquiátrica Integrada da Adolescência) na ULSSM (Unidade Local de Saúde de Santa Maria) reflito que o trabalho psicoterapêutico com adolescentes em contexto de internamento psiquiátrico coloca o clínico perante um paradoxo particular: intervir num momento de crise aguda num período do desenvolvimento já marcado por profundas transformações psíquicas. Neste enquadramento, a intervenção de orientação psicanalítica não se centra prioritariamente na interpretação dos conteúdos inconscientes, mas antes na capacidade do terapeuta para sustentar, conter e pensar com o adolescente, respeitando simultaneamente as suas defesas e o seu ritmo de elaboração psíquica.
A partir da experiência clínica em contexto de internamento, esta comunicação propõe uma reflexão com vinhetas clínicas em torno de três eixos fundamentais do trabalho terapêutico com adolescentes: a função continente do terapeuta, a autenticidade da relação terapêutica e o recurso a mediações simbólicas enquanto dispositivos privilegiados de acesso à experiência emocional.
Em situações de crise aguda, muitos adolescentes apresentam estados emocionais intensos e insuficientemente simbolizados, nos quais a capacidade de pensar e de representar se encontra temporariamente comprometida. Nestes contextos, torna-se particularmente relevante a função continente descrita por Bion (1962), através da qual o terapeuta acolhe, metaboliza e transforma experiências emocionais ainda impensáveis. Ao oferecer um espaço psíquico capaz de receber estas vivências brutas, o terapeuta possibilita que estas possam progressivamente adquirir estatuto representacional e integrar-se no funcionamento mental do adolescente.
A autenticidade do vínculo terapêutico constitui igualmente um elemento central neste processo. Os adolescentes demonstram uma elevada sensibilidade à presença genuína do adulto e à coerência da relação estabelecida. Uma breve vinheta clínica ilustra este fenómeno: um adolescente manifesta surpresa quando a terapeuta recorda muitos elementos significativos da sua história, mas esquece a sua escolha de curso profissional que ele valoriza. Este episódio transforma-se posteriormente num jogo relacional: “será que eu existo dentro da sua mente?”. Tal experiência aproxima-se da noção de Winnicott (1975) de constância do objeto, permitindo ao adolescente reconhecer que o objeto pode falhar sem deixar de permanecer.
Quando as angústias mobilizadas são demasiado dolorosas para serem abordadas de forma direta, o recurso a mediações simbólicas torna-se relevante. O conceito de objetos intermediários, desenvolvido por Rojas-Bermúdez (2016), revela-se fecundo neste contexto pois permite abordar conteúdos sensíveis sem exposição direta.
Um exemplo clínico ilustra esta função mediadora: uma adolescente com anorexia, inicialmente centrada exclusivamente no controlo do corpo e da alimentação, começou gradualmente a construir uma narrativa inspirada na figura mítica da Medusa e através desta elaboração narrativa, a adolescente passa a abordar, de forma indireta, temas relacionados com abuso, inveja fraterna, culpa e separação.
O trabalho psicoterapêutico em internamento pode, assim, ser compreendido como a construção de um espaço relacional suficientemente seguro onde, através da presença consistente do terapeuta e do recurso a mediações simbólicas, se torna possível iniciar processos de simbolização. Mais do que interpretar a crise, trata-se de criar condições para que aquilo que era vivido predominantemente no corpo ou no agir possa progressivamente adquirir forma psíquica, relacional e representacional, permitindo uma forma de simbolização que antes era impossível.
O trabalho vivencial em grupo também desempenha uma parte importante deste trabalho, promovendo a conexão e a empatia entre os adolescentes. O grupo terapêutico em internamento, ao realizar atividades criativas e expressivas, possibilita que os adolescentes, que se sentem isolados e desconectados, comecem a compartilhar suas experiências e emoções, ainda que inicialmente de forma muito deslocada e projetiva. Essa interação não só ajuda com as angústias atuais como também facilita a construção de vínculos e a integração de experiências emocionais. Esses vínculos podem e já foram prelúdio de pedidos de ajuda futuros mais saudáveis.
Em conclusão, o trabalho psicoterapêutico em internamento deve ser compreendido como a criação de um espaço relacional seguro, onde a presença consistente do terapeuta e o uso de mediações simbólicas, conjuntamente com o trabalho vivencial em grupo, possibilitam a iniciação de processos de simbolização. Em vez de apenas interpretar a crise, o foco deve ser em criar condições que permitam aos adolescentes reconectar-se com suas emoções e experiências, transformando o que é vivido predominantemente no corpo ou na ação em algo representável e relacional.
Joana Gonçalves




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