A função continente e mediações simbólicas na intervenção psicoterapêutica de adolescentes em internamento psiquiátrico
- Joana Gonçalves

- há 14 horas
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Passado mais de um ano da abertura da UPIA (Unidade Psiquiátrica Integrada da Adolescência) na ULSSM (Unidade Local de Saúde de Santa Maria) reflito que o trabalho psicoterapêutico com adolescentes em contexto de internamento psiquiátrico coloca o clínico perante um paradoxo particular: intervir num momento de crise aguda num período do desenvolvimento já marcado por profundas transformações psíquicas. Neste enquadramento, a intervenção de orientação psicanalítica não se centra prioritariamente na interpretação dos conteúdos inconscientes, mas antes na capacidade do terapeuta para sustentar, conter e pensar com o adolescente, respeitando simultaneamente as suas defesas e o seu ritmo de elaboração psíquica.
A partir da experiência clínica em contexto de internamento, esta comunicação propõe uma reflexão com vinhetas clínicas em torno de três eixos fundamentais do trabalho terapêutico com adolescentes: a função continente do terapeuta, a autenticidade da relação terapêutica e o recurso a mediações simbólicas enquanto dispositivos privilegiados de acesso à experiência emocional.
Em situações de crise aguda, muitos adolescentes apresentam estados emocionais intensos e insuficientemente simbolizados, nos quais a capacidade de pensar e de representar se encontra temporariamente comprometida. Nestes contextos, torna-se particularmente relevante a função continente descrita por Bion (1962), através da qual o terapeuta acolhe, metaboliza e transforma experiências emocionais ainda impensáveis. Ao oferecer um espaço psíquico capaz de receber estas vivências brutas, o terapeuta possibilita que estas possam progressivamente adquirir estatuto representacional e integrar-se no funcionamento mental do adolescente.
A autenticidade do vínculo terapêutico constitui igualmente um elemento central neste processo. Os adolescentes demonstram uma elevada sensibilidade à presença genuína do adulto e à coerência da relação estabelecida. Uma breve vinheta clínica ilustra este fenómeno: um adolescente manifesta surpresa quando a terapeuta recorda muitos elementos significativos da sua história, mas esquece a sua escolha de curso profissional que ele valoriza. Este episódio transforma-se posteriormente num jogo relacional: “será que eu existo dentro da sua mente?”. Tal experiência aproxima-se da noção de Winnicott (1975) de constância do objeto, permitindo ao adolescente reconhecer que o objeto pode falhar sem deixar de permanecer.
Quando as angústias mobilizadas são demasiado dolorosas para serem abordadas de forma direta, o recurso a mediações simbólicas torna-se relevante. O conceito de objetos intermediários, desenvolvido por Rojas-Bermúdez (2016), revela-se fecundo neste contexto pois permite abordar conteúdos sensíveis sem exposição direta.
Um exemplo clínico ilustra esta função mediadora: uma adolescente com anorexia, inicialmente centrada exclusivamente no controlo do corpo e da alimentação, começou gradualmente a construir uma narrativa inspirada na figura mítica da Medusa e através desta elaboração narrativa, a adolescente passa a abordar, de forma indireta, temas relacionados com abuso, inveja fraterna, culpa e separação.
O trabalho psicoterapêutico em internamento pode, assim, ser compreendido como a construção de um espaço relacional suficientemente seguro onde, através da presença consistente do terapeuta e do recurso a mediações simbólicas, se torna possível iniciar processos de simbolização. Mais do que interpretar a crise, trata-se de criar condições para que aquilo que era vivido predominantemente no corpo ou no agir possa progressivamente adquirir forma psíquica, relacional e representacional, permitindo uma forma de simbolização que antes era impossível.
O trabalho vivencial em grupo também desempenha uma parte importante deste trabalho, promovendo a conexão e a empatia entre os adolescentes. O grupo terapêutico em internamento, ao realizar atividades criativas e expressivas, possibilita que os adolescentes, que se sentem isolados e desconectados, comecem a compartilhar suas experiências e emoções, ainda que inicialmente de forma muito deslocada e projetiva. Essa interação não só ajuda com as angústias atuais como também facilita a construção de vínculos e a integração de experiências emocionais. Esses vínculos podem e já foram prelúdio de pedidos de ajuda futuros mais saudáveis.
Em conclusão, o trabalho psicoterapêutico em internamento deve ser compreendido como a criação de um espaço relacional seguro, onde a presença consistente do terapeuta e o uso de mediações simbólicas, conjuntamente com o trabalho vivencial em grupo, possibilitam a iniciação de processos de simbolização. Em vez de apenas interpretar a crise, o foco deve ser em criar condições que permitam aos adolescentes reconectar-se com suas emoções e experiências, transformando o que é vivido predominantemente no corpo ou na ação em algo representável e relacional.
Joana Gonçalves




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