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Três corpos, uma pessoa

  • Foto do escritor: Eneia Araújo Bexiga
    Eneia Araújo Bexiga
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura
Antony Gormley, Exposure (The Crouching Man), 2010. Lelystad, Países Baixos. Foto: Wikimedia Commons / CC BY-SA.
Antony Gormley, Exposure (The Crouching Man), 2010. Lelystad, Países Baixos. Foto: Wikimedia Commons / CC BY-SA.

Há uma pergunta que me acompanha há mais de quatro anos, desde que comecei a trabalhar clinicamente com pessoas que fizeram cirurgia bariátrica: quando o corpo muda assim tão depressa, quem é a pessoa que fica?

Não é uma pergunta retórica. É o que muitos dos utentes trazem para a cena, às vezes sem palavras, às vezes com palavras a mais. O estômago reduziu, o peso desceu, as roupas deixaram de servir. O espelho mostra outra silhueta. E no entanto, algo não encaixa. Há um estranhamento que a cirurgia não resolve, e que foi há cerca de um ano que ganhou palco, quando iniciei o primeiro grupo de psicodrama com esta população, no Hospital Curry Cabral, sob supervisão externa de Renny Gil, psicodramatista. O grupo nasceu da convicção de que a transformação física exige um acompanhamento que vá para além do biológico. O corpo pode mudar depressa; a experiência de si, essa, demora.

Foi dessa tensão clínica que emergiu, progressivamente, o modelo dos três corpos - o corpo físico, o corpo emocional e o corpo social. Uma formulação que não nasceu como teoria fechada, mas como pensamento amadurecido na escuta, na supervisão e no trabalho partilhado com o grupo, ao longo de um ano de encontros quinzenais com pessoas que, apesar das mudanças visíveis, continuavam a sentir-se estranhas a si próprias.

O corpo físico é o mais imediato. É o que a cirurgia altera, o que a balança mede, o que os exames acompanham. É também o corpo que a medicina conhece melhor: concreto, mensurável, observável. Mas esse corpo, por si só, não conta a história inteira.

O corpo emocional é muito mais lento, mais subterrâneo, mais difícil de nomear. É o corpo que ainda se sente gordo quando já não o é. Que evita o espelho não por vaidade, mas por receio do que possa encontrar. Que procura comida quando está triste, ansioso ou sozinho, não por fome, mas como forma de se regular, de se acalmar, de se sustentar. Este é o corpo onde moram as primeiras memórias à mesa, os olhares dos outros, os comentários que ficaram, as vergonhas antigas, os modos precoces de consolo e defesa.

O corpo social é o corpo no olhar do outro: o corpo que durante anos foi visto através do estigma, da invisibilidade ou da hipervisibilidade. O corpo que aprendeu a ocupar menos espaço, no espaço físico e no espaço da relação. A cirurgia pode mudar a forma, mas não apaga de imediato a memória social inscrita no sujeito. A pessoa pode continuar a pedir desculpa por existir, a encolher-se à mesa, a hesitar antes de falar, como se o corpo antigo ainda organizasse a sua presença no mundo. Mas há também o outro lado: quem durante anos dirigiu a agressividade para dentro, muitas vezes na forma de comer, de se punir, de se silenciar, pode começar a colocá-la fora, ainda sem saber bem como. A cirurgia não ensina a gerir o que ficou guardado. Isso também chega à cena.

É aqui que a ideia de identidade em tensão ganha toda a sua força. Depois da cirurgia, a identidade deixa de poder apoiar-se numa continuidade simples entre o corpo vivido e o corpo refletido. A pessoa encontra-se entre aquilo que já não é e aquilo que ainda não conseguiu ser. Habita um intervalo. Vive entre versões de si. E esse intervalo, longe de ser um mero período de adaptação, é muitas vezes o lugar mais difícil de suportar.

A tensão não deve ser entendida como erro. Deve ser lida como expressão da complexidade do processo identitário. O corpo físico muda depressa; o corpo emocional demora a acompanhar; o corpo social insiste nas marcas anteriores. Daí o estranhamento, o desajuste, a sensação de descontinuidade que tantas pessoas descrevem no pós-operatório. A identidade não aparece como uma forma acabada, aparece como algo em reorganização, em busca de nova coerência.

Num grupo onde o corpo foi durante anos o lugar do problema, convocar o corpo para a cena terapêutica é já, em si, um gesto de transformação. O psicodrama oferece exatamente isso: um lugar onde o que ainda não tem palavras pode ganhar movimento, forma, presença. Onde é possível experimentar papéis antigos de outro modo e ensaiar formas novas de estar consigo e com os outros. Moreno entendia a espontaneidade como a capacidade de oferecer uma resposta nova a uma situação velha, e é precisamente isso que o pós-bariátrico tantas vezes exige: não repetir, em corpo novo, a mesma história.

Ao longo do ano, o grupo tornou-se um espaço de contenção e transformação, aquilo que Anzieu chamaria um envelope grupal, e que Kaës pensaria como um aparelho psíquico partilhado: um lugar onde o que não podia ser pensado a sós começava a ganhar forma no entrelaçamento com os outros. Para pessoas que viveram anos em corpos sentidos como excessivos, embaraçosos ou traidores, este reconhecimento mútuo tem um valor difícil de exagerar.

A transformação pós-bariátrica não é apenas uma questão de peso ou de forma. É uma transformação da relação consigo, com a memória e com o olhar dos outros. E essa passagem não acontece por decreto. Exige tempo, vínculo, linguagem e, por vezes, uma cena onde o corpo possa finalmente aparecer de outro modo.

Talvez seja isso que este trabalho nos ensina: que não transformamos apenas um corpo, mas a forma como esse corpo é vivido, lembrado e reconhecido. E que a identidade, longe de ser uma unidade estável, é um processo vivo, feito de tensões, desencontros e possíveis integrações.

Porque habitar de novo o próprio corpo não acontece no bloco operatório. Acontece no tempo, na relação e, às vezes, num palco.

O modelo dos três corpos foi desenvolvido em co-construção com Renny Gil, no âmbito da supervisão do grupo, a quem agradeço o pensamento partilhado.


Eneia Araújo Bexiga

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