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Memória Afetiva em Cena: Reflexões a partir do 25.º Congresso Brasileiro de Psicodrama

  • Foto do escritor: Telma Batista
    Telma Batista
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Chegar ao Brasil para um congresso de psicodrama não é apenas uma viagem geográfica… é também uma travessia interior… um deixar-nos afetar por outra cadência de língua, por outra forma de habitar o espaço grupal, por outra temperatura no encontro entre corpos e ideias. Foi com essa disponibilidade que parti para Campo Grande, em junho de 2026, para participar no 25.º Congresso Brasileiro de Psicodrama.

O congresso reuniu psicodramatistas de todo o Brasil e de alguns outros países, num encontro entre tradições teóricas, gerações e metodologias. O tema central do congresso - Territórios, Memórias e Transformações - atravessou palestras, vivências e conversas nos corredores com a força de quem reconhece, no psicodrama, não apenas uma técnica, mas uma forma de conhecer a partir do que se vive e se sente.

A vivência que propus — "Psicodrama Psicanalítico e os Territórios da Memória Afetiva" — procurou criar um espaço de contacto com aquilo que, nas palavras de René Kaës, constitui o aparelho psíquico grupal: a dimensão partilhada, onde os afetos circulam antes mesmo de serem nomeados. A pergunta pela qual me fui orientando foi simples: o que guarda o corpo do que foi sentido, no passado e possível de, no aqui e no agora, ser reativado em grupo?

Trabalhámos a partir de Cartas Dixit como objetos mediadores simbólicos — um convite à projeção, à distância criativa, à possibilidade de dizer o que ainda não tem palavras. Cada carta tornou-se um território: o lugar do corpo, o lugar da memória, o lugar do encontro. A sociometria, longe de querer ser apenas um instrumento de categorização, revelou-se um movimento de aproximação entre pessoas que reconhecem, no outro, algo que também é seu.

Um dos momentos mais tocantes da sessão foi a fase de processamento. Ao partilharmos as ressonâncias afetivas que emergiam, sem ainda as interpretar, aconteceu algo que Didier Anzieu descreveria como a ativação do envelope grupal: uma membrana comum, porosa, que permite a circulação do sentido sem o aprisionar.  Não fomos somente indivíduos numa sala,  fomos um campo vivo de sentires.

O pensamento de Foulkes surgiu naturalmente neste contexto: a matriz grupal como o solo inconsciente onde cada voz individual é, ao mesmo tempo, uma voz do grupo. Neste sentido, cada memória afetiva que emergiu na sessão não pertencia apenas a quem a trazia, era um eco de algo mais antigo, mais coletivo, que o grupo reconhecia como seu.

 

Voltei de Campo Grande com uma certeza renovada: o psicodrama psicanalítico é, na sua essência, uma prática da hospitalidade ao inconsciente, ao outro, ao inesperado. Reencontrei em Moreno aquilo que me parece ser o seu legado mais vivo: a convicção de que o ser humano tem em si a capacidade de se reinventar, de criar, de responder ao momento com algo que ainda não existia. A espontaneidade não como impulsividade, mas como abertura ao possível. E a encontrar em Bustos a sabedoria clínica do aquecimento, em Rojas-Bermúdez a delicadeza do objeto intermediário, e em Cukier a leitura psicanalítica que aprofunda o que a cena apenas esboça — sinto que pertencemos a uma mesma comunidade, mesmo quando os idiomas e as tradições diferem.

O congresso lembrou-me também que a função continente — tão central no nosso trabalho clínico e psicanalítico — não termina quando a sessão acaba. Ela prolonga-se na palavra que fica, no gesto que é lembrado, na memória afetiva que o grupo deixa em cada um de nós. Talvez seja esse o sentido mais profundo de um congresso: não apenas transmitir conhecimento, mas criar campo — um campo onde o pensamento pode nascer, mover-se, e ser recebido.

Trago comigo rostos, perguntas, cenas internas que ainda estão a ser processadas. E uma gratidão — à hospitalidade brasileira, à coragem do encontro, e à beleza irredutível de um trabalho que acredita que o humano se transforma quando encontra o humano.



Telma Batista

 

 

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