top of page

Jorge Palma em Cena: Uma Vivência Psicodramática

Foto do escritor: João Paulo Ribeiro
João Paulo Ribeiro
há 3 horas
5 min de leitura

Foto: Rita Carmo in Blitz
Foto: Rita Carmo in Blitz

Jorge Palma faleceu no passado dia 21 de Setembro. A sua morte representa mais do que o falecimento de um dos relevantes artistas portugueses das últimas décadas. Do ponto de vista simbólico, perdemos uma referência identitária do nosso imaginário coletivo. Com efeito, Jorge Palma, enquanto representação simbólica, torna-se num símbolo que condensa as nossas tristezas e mágoas, alegrias e realizações, a esperança de sobreviver ao destino, a redenção do mal-estar e do desamparo, o acolhimento pelo amor, o reconhecimento da fragilidade humana, mas também das suas extraordinárias capacidades transformativas.

Nesta breve homenagem propomos apresentar um Jorge Palma no palco psicodramático, seja enquanto figura do imaginário coletivo, seja enquanto membro de um grupo terapêutico de psicodrama.

Comecemos pelo Jorge Palma como figura imaginária coletiva. O diretor convida todos os membros do grupo a dramatizarem, e propõe uma cena em que partilham uma música ou uma memória musical, assim como o impacto que essa música ou recordação teve nas suas vidas. Os elementos do grupo vão colocando no palco psicodramático fragmentos de letras ou o título de músicas, escritas em folhas de papel. Espalham pelo palco do psicodrama essas folhas e, de seguida, colocam-se junto das mesmas. É então solicitado pelo diretor um solilóquio, onde os indivíduos expressam os sentimentos que associam a essas músicas ou versos. De seguida, o diretor propõe a partilha de uma memória associada às músicas ou aos versos, sendo que todas essas memórias podem ser dramatizadas. O grupo, enquanto campo de processos intertransferenciais (Kaës), fica assim “pulverizado” emocionalmente por um conjunto de vivências afetivas de distintos tipos, bem como temporalmente transferido para outros lugares da história de vida dos pacientes. Depois deste momento, o diretor reformula a sua hipótese terapêutica (Rojas-Bermúdez) sobre o que está a ocorrer no campo psicodramático, equacionando três dramatizações: a) Recriar as cenas usando as músicas de Jorge Palma, em dramatizações não verbais, com o recuso à psicodança enquanto técnica terapêutica; b) Colocar em cena as memórias partilhadas, com o recurso a técnicas psicodramáticas como role-play, inversão de papéis, entre outras; c) Colocar Jorge Palma no cenário psicodramático - papel desempenhado pelo ego-auxiliar da equipa terapêutica -, dando a possibilidade dos elementos do grupo dialogarem com o artista. Neste diálogo imaginário Jorge Palma vai acolhendo as partilhas dos pacientes, agindo em complementaridade com os afetos para si transferidos, podendo devolvê-los corporalmente ou por palavras. Assim, estas devoluções contemplam reações corporais, como abraços ou outro tipo de movimentos contentores, e palavras de ressonância emocional às vivências dos protagonistas.

Alberto é o nome fictício de um paciente imaginário. No grupo terapêutico, Alberto partilha a relação familiar com a obra de Jorge Palma, presente em inúmeros momentos da sua vida. Alberto recorda-se de ter ouvido pela primeira vez Jorge Palma na sua adolescência, um amigo mostrara-lhe parte da obra. Durante anos não dera grande relevância à obra discográfica do artista, até à separação da sua primeira mulher. Essa foi uma altura difícil da sua vida, na medida em que se relacionava com a sua primeira esposa desde a adolescência; uma relação que julgava como certa. Nesse período da sua vida, emergiu em Alberto um desamparo que sentia como uma revivência, e o fazia sentir-se desesperançado e sem rumo. Foi nessa altura que um familiar lhe ofereceu um disco de Jorge Palma, o álbum “Dá-me Lume: O Melhor de Jorge Palma”. Ao longo de vários dias Alberto ouviu o álbum reiteradamente, fixando-se nas letras e nas melodias. No palco psicodramático Alberto coloca em folhas os títulos das músicas “À Espera do Fim”, “Minha Senhora da Solidão”, “Canção de Lisboa”, Eternamente Tu”, “Bairro do Amor” e “Só”, sendo, então, solicitado um solilóquio e uma memória associada a cada uma destas canções. Vai elegendo estados emocionais como tristeza, solidão, desamparo, amparo, desespero, esperança, fracasso e amor. No que respeita a memórias, partilha com o grupo terapêutico os seus momentos de isolamento e escasso cuidado consigo mesmo. Alberto está bastante emocionado, e confessa que na fase crítica do seu divórcio perdeu a esperança e o desejo de viver. As músicas de Jorge Palma foram nessa altura um amparo fundamental, a principal companhia que teve nesse período. O diretor solicita, assim, que Alberto partilhe esse sentir com Jorge Palma, colocando-o em cena através do ego-auxiliar da equipa terapêutica. Alberto agradece a Jorge Palma, explicitando-lhe a importância que teve nesse período crítico da sua vida, abraçando-o de seguida. O diretor propõe então uma dança entre o protagonista e Jorge Palma, embalados pela música “A Gente Vai Continuar”. A dramatização encerra com um Alberto profundamente comovido e agradecido ao grupo.

Como referimos, uma outra hipotética situação seria a de um grupo terapêutico de psicodrama em que Jorge Palma fosse um dos pacientes. Nesta situação, Jorge Palma estaria em processo terapêutico de psicodrama desde algum tempo. No decurso do processo teria partilhado a sua história de vida: as angústias, as alegrias, as deceções, a infância, a ligação precoce à música clássica e mais tardia ao rock, a saída de Portugal e as histórias vividas nesse período, as relações amorosas e com os filhos, a relação com o álcool e os problemas de saúde ocorridos. Jorge Palma era acarinhado por todos, na sua dupla condição de humano imperfeito e de ídolo musical. Nas últimas sessões, a sua fragilidade física tornara-se evidente, sendo tema recorrente das partilhas do artista. O diretor decide torná-la alvo do trabalho dramático, convidando Jorge Palma a dialogar com São Pedro, que se encontra entre a vida e a morte, na porta do céu. No diálogo com São Pedro recorda as diferentes experiências da sua vida e a forma como essas vivências constituíram a matéria-prima da sua música. Além disso, aborda a relação com a família e com o público, determinantes na superação dos momentos difíceis. Particulariza situações marcantes e as aspirações que o ligam à vida. Sente-se vivo e desejoso de continuar a viver, mas sabe estar doente. São Pedro coloca-o então na linha que separa a vida da morte, e solicita que se despeça das pessoas e realizações da sua vida. Jorge Palma elege, em primeiro lugar, a mulher, os filhos e os amigos. Abraça-os, desejando que aproveitem ao máximo o que a vida tem para oferecer. A seguir despede-se do público, fiel companheiro dos seus sentires e estados de alma. Refere que nunca se sentiu sozinho, na medida que se sentiu compreendido por todas as pessoas que apreciam a sua música. De seguida despede-se da música, agradecendo tudo o que ela lhe proporcionou. Tem a consciência de que a sua música vai perdurar e espera que possa ajudar muitas pessoas. Por fim diz que tem de partir para o céu. A dramatização termina e o grupo em uníssono exclama: enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar!


João Paulo Ribeiro

Comentários


  • Instagram
  • Black Facebook Icon

© 2023 Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo

bottom of page