“A mesa ficou posta”


A morte de Jorge Palma encerra biologicamente uma existência, mas não enclausura a relação que a sua obra mantém com quem a escuta. A morte de um artista possui uma particularidade: não desaparece apenas uma pessoa; desaparece também um corpo que servia de suporte à possibilidade de novas obras. No entanto, as canções permanecem e passam a funcionar como lugares de memória, capazes de reativar emoções, relações e versões antigas de nós próprios.
Inspirados em “A Origem do Drama” e “Demónios Interiores”, podemos pensar a obra de Jorge Palma a partir de uma perspetiva psicanalítica, psicodramática e literária. Estas duas canções colocam em cena questões fundamentais da existência - a procura da origem do sofrimento, a impossibilidade de compreender inteiramente o que nos acontece e a necessidade de estabelecer uma relação com aquilo que nos habita.
Em “A Origem do Drama”, a pergunta fundamental é precisamente a procura da origem: de onde vem aquilo que perturba a aparente ordem da existência? A canção apresenta-nos uma realidade em que algo deixa de funcionar, apesar de anteriormente parecer certo. Surge então a necessidade de encontrar uma causa, de perceber onde começou o erro e quem poderá explicar o acontecimento.
Esta procura aproxima-se profundamente da psicanálise. O poeta sofre e procura saber porquê. Quer localizar a origem do conflito, reconstruir a sua história e encontrar um sentido para aquilo que vive. Contudo, a psicanálise mostra-nos que o sofrimento psíquico raramente possui uma causa única e transparente. A pessoa não é inteiramente senhora de si própria: existem desejos, conflitos, repetições e experiências que permanecem parcialmente inconscientes.
A canção pode, assim, ser entendida como uma metáfora da procura interminável do sentido. O sintoma pode ser identificado, mas a origem do drama permanece mais difícil de alcançar. Procuramos uma explicação para aquilo que nos acontece, mas a história psíquica é sempre mais complexa do que uma relação linear entre causa e efeito.
A palavra “drama” permite ainda uma aproximação particularmente fecunda ao Psicodrama. A vida psíquica pode ser compreendida como uma cena onde existem personagens, conflitos, papéis e acontecimentos que procuram uma resolução. O indivíduo desempenha papéis e, muitas vezes, representa no presente cenas que pertencem ao passado. Em “A Origem do Drama”, parece existir precisamente uma personagem que procura compreender o argumento da própria vida, mas descobre que o desfecho nem sempre corresponde ao que tinha imaginado.
A morte introduz, neste sentido, uma rutura radical na narrativa. Interrompe o argumento e deixa perguntas sem resposta. A biografia termina, mas a obra continua. Jorge Palma já não poderá acrescentar novas canções ou responder às interpretações que delas fazemos, porém, as suas palavras continuam a produzir acontecimentos psíquicos nos vivos.
É neste ponto que “Demónios Interiores” introduz uma mudança fundamental. Se a primeira canção pergunta pela origem do drama, a segunda propõe uma forma de relação com aquilo que nos perturba - sentar os demónios à mesa.
Esta imagem possui uma extraordinária força psicanalítica. Os “demónios interiores” podem representar aquilo que a pessoa tende a rejeitar em si: medo, raiva, culpa, vergonha, desejo, fragilidade, solidão ou agressividade. A solução não consiste necessariamente em expulsá-los, mas em reconhecê-los, nomeá-los e estabelecer com eles uma relação.
No Psicodrama, esta imagem pode ser concretizada de forma quase literal. Cada demónio poderia ocupar uma cadeira e tornar-se uma personagem. O protagonista poderia perguntar-lhe: “Quem és tu? O que queres de mim? Quando apareceste?” Aquilo que inicialmente surge como uma força indiferenciada passa, através da dramatização, a poder ser observado e pensado. O que é representado pode ser colocado em relação.
A mesa transforma-se, assim, num espaço de encontro. Em vez da expulsão, temos acolhimento; em vez da negação, reconhecimento; em vez do conflito exclusivamente interno, relação. A integração não significa que os demónios desapareçam definitivamente. Eles podem partir, mas regressam. O medo regressa, a angústia regressa, a solidão regressa. A maturidade psicológica talvez não consista em viver sem demónios, mas em conseguir relacionar-se com eles de outra maneira.
As duas canções podem, portanto, ser colocadas em diálogo. “A Origem do Drama” representa o movimento da procura: de onde vem isto? “Demónios Interiores” representa o movimento da integração: como posso viver com aquilo que não consigo eliminar? A primeira aproxima-se da interpretação; a segunda, da possibilidade de estabelecer uma relação transformadora com o conflito.
A morte de Palma altera inevitavelmente a forma como estas canções são escutadas. Não porque devam ser transformadas retroativamente em profecias sobre a morte, mas porque a ausência modifica o horizonte de interpretação. O que antes podia ser ouvido como reflexão sobre a existência é agora atravessado pela experiência concreta da perda.
O luto, também ele, pode ser entendido como uma espécie de Psicodrama interior. A pessoa desaparecida fisicamente continua a ocupar lugares na nossa cena psíquica. Podemos continuar a falar com ela, imaginar o que responderia, reencontrá-la numa canção ou numa memória. Palma poderá, para muitos ouvintes, transformar-se numa dessas presenças internas.
Quando um artista morre, morre também uma possibilidade de futuro: já não haverá novas canções, novos concertos ou novas interpretações dadas pelo próprio. Todavia a obra permanece. Uma canção pode conservar uma versão de nós próprios que já não existe. Pode transportar-nos para uma idade, um amor, uma perda ou uma pessoa. Por isso, o luto por Jorge Palma será também, para muitos, um reencontro com aquilo que foram quando o escutaram.
Se tivéssemos de condensar as duas canções numa única imagem, poderíamos imaginar um homem sentado diante de uma mesa. À sua frente estão os seus demónios; atrás dele permanece a pergunta sobre a origem do drama. Ele não consegue compreender completamente a origem do sofrimento, não consegue corrigir todas as contas e não consegue impedir que os demónios regressem. Mas pode sentar-se com eles e transformá-los em linguagem.
Talvez seja esta uma das dimensões mais profundas da obra de Palma - fazer daquilo que dói uma canção. A sua morte acrescenta agora uma nova camada de sentido às suas palavras, mas não encerra a sua obra. Pelo contrário, devolve-a aos ouvintes atuais e futuros.
Jorge Palma partiu, contudo, a mesa ficou posta.
E nós continuamos a escutar e a perpetuar a sua memória...
João Domingues




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