David Zimerman (1930-2014) Uma Homenagem a Quatro Mãos
- Maria Moreira dos Santos e João Paulo Ribeiro

- 31 de jul.
- 4 min de leitura
David Zimerman foi, como sabemos, uma importante figura na psicanálise brasileira, cuja obra tem ampliado a compreensão sobre a subjetividade humana e as relações interpessoais. A sua abordagem continua a influenciar não só a prática clínica, mas também o ensino, e a sua reflexão sobre os grupos é de crucial importância para o psicodrama psicanalítico, tendo influenciado diversos psicodramatistas.
Oiçamos Maria Moreira dos Santos e João Paulo Ribeiro neste breve contributo e homenagem. Comecemos pelas palavras de Maria Moreira dos Santos.
Tive o grato prazer de conhecer David Zimerman. Impressionou-me a sua gentileza e simplicidade de estar. Conheci-o no congresso “Bion Hoje”, através de Carlos Amaral Dias. Falando sobre si, disse-me que não era um especialista em Bion e confidenciou-me que procurara Bion para estudar a sua obra “Experiências em Grupos”, pois trabalhava com grupos numa clínica psiquiátrica, e contou-me que sentiu que estava perante um autor que dizia coisas diferentes.
Procurara ler outras obras e achara-as “irritantemente difíceis” não as entendendo, mas Bion ficara dentro de si “como que uma esperança de um segundo momento”. Depois, evoluindo na sua formação, ao ler um texto de Pedro Luzes renovou o seu interesse. Mais tarde, ao assistir aos seminários clínicos de Bion e ao observar como este trabalhava na clínica, escreveu: “retomei o namoro, e nunca mais nos separámos.”
No entanto, falando de si enquanto psicanalista, afirmou que não se considerava um Bioniano puro, porque “eu faço questão dentro de mim de preservar as ideias, as correntes psicanalíticas de outros autores. Se eu tiver que me qualificar, eu me situaria como um livre pensador, até para fazer justiça ao que Bion me ensinou, que é a ideia da liberdade”, e continuou “nesse espaço que se cria é que eu ponho a minha experiência clínica, às vezes bem, às vezes mal, mas faço questão de me considerar livre na forma de pensar e de praticar o quotidiano.”[1]
Mais tarde, num dos intervalos da palestra de António Muniz de Rezende, confessou-me: “Sabe, Maria, um analisando meu fez-me voltar ao analista. Foi-me difícil escolher um, mas tive de voltar.” E eu para ali fiquei entre o espanto e o encanto, com a sua simplicidade e humildade. Lembrei-me de T. S. Eliot, que em “Quatro Quartetos” escreve: “O único saber pelo qual podemos ter esperança é o saber da humildade: a humildade é infinita”; e pensei como Zimerman acrescentara dentro de mim a ideia da humildade e da humanidade. Se existem pessoas e ideias que nos tocam, ele foi uma dessas pessoas, e procuro não esquecer o conteúdo do nosso diálogo: devo estar sempre em demanda, procurando sempre, embora sabendo que não atingirei nunca. Estamos perante o vir a ser de que nos fala Bion; estamos perante o vir a ser de Zimerman, aquilo que ainda espera para ser descoberto, ou resgatado, ou recriado; estamos perante o vir a ser de cada um dos nossos psicodramatizandos, que, ao permitirem o acesso ao seu interior, estabelecem vínculos e podem alcançar verdadeiras transformações.
Em “Bion: Aspectos Clínicos”, Zimerman debruça-se sobre os diferentes períodos da psicanálise, desde a ortodoxa até à contemporânea, que irá privilegiar no trabalho psicanalítico com o foco nos vínculos, uma vez que estes irão determinar as relações intra e interpessoais. A ênfase não é colocada no que está no analisando ou no analista, incidindo antes no que está entre ambos. É neste espaço, neste campo terapêutico, que muitos fenómenos do psicodrama ocorrem.
No seu trabalho sobre grupos, David Zimerman explorou como estes podem servir de espaço de transformação e de crescimento pessoal. Alguns dos temas que aborda incluem:
Dinâmica Grupal: Como as interações entre os membros do grupo podem influenciar o processo terapêutico e promover mudanças significativas na vida dos pacientes.
Grupo como Espaço Terapêutico: Zimerman analisa como a experiência partilhada pode conduzir ao entendimento do outro e ao de nós próprios.
Identidade e Relações: A relação entre a identidade individual e a dinâmica grupal, isto é, como as identidades são influenciadas pelo grupo e vice-versa.
Papel do Facilitador: A função do terapeuta, abordando como este pode ajudar a criar um ambiente seguro e acolhedor, no qual os participantes podem explorar os seus sentimentos e vivências.
Tratamento em Grupo: Fala da eficácia e especificidades das abordagens terapêuticas em grupo, comparando-as à terapia individual.
Tal como sucedeu a Maria Moreira dos Santos, também vi David Zimerman no saudoso congresso "Bion Hoje", a única vez que tive contacto com ele. Todavia, nunca me esqueci da sua conferência, e da sua amabilidade, delicadeza e vontade de ensinar.
Como fizemos questão de mencionar consideramos a obra de grupos de Zimerman um marco fundamental para o estudo da psicologia grupal e do campo grupal dinâmico, integrando várias abordagens e teorias sobre grupos, tais como a obra de Freud e de Bion sobre grupos, e as escolas argentina e francesa.
Nesse sentido, concluímos esta breve homenagem com uma citação sua, tão querida ao psicodrama: “O que realmente importa é o novo espaço que se forma, é o clima, a situação analítica, que vai precipitar fortes experiências emocionais, tanto novas como a reedição de antigas.” (Zimerman, 1998, p. 108).
Maria Moreira dos Santos
João Paulo Ribeiro
[1] Zimerman, D. (1998). Bion: Aspectos Clínicos. In A. M. Rezende, C. A. Dias, & D. Zimerman (Eds.), Bion hoje (pp. 105-181). Lisboa: Fim de Século.


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